domingo, 4 de setembro de 2011

Rubem Valentim - por Almandrade

Um artista intuitivo que, logo cedo, teve a sorte de descobrir Cézanne,
aprendeu noções de espaço na pintura e percebeu ainda que pintar era um
trabalho minucioso e rigoroso. Aliás, “o verdadeiro destino de um grande
artista é um destino de trabalho” (Bachelard). E foi justamente esta dedi-
cação a uma vida de trabalho que fez de Rubem Valentim um mestre
virtuoso; talvez o primeiro pintor baiano a enfrentar de frente a moder-
nidade. A cultura popular, as imagens afro-brasileiras, eram materiais de
pesquisa plástica, matéria-prima para sua arte, submetida a uma disciplina
e organização rigorosa, constituíam-se em imagens pictóricas no espaço
da tela aspirando uma universalidade. Sua arte acabou se aproximando
da tendência construtiva emergente na arte brasileira da época. Não era,
com certeza, um artista concreto, mas chegou a representar o Brasil, na
I Bienal de Arte Construtiva, em Nuremberg, juntamente com o ortodoxo
concretista paulista Waldemar Cordeiro.

Valentim desenvolveu sua arte a partir de signos da cultura afro, ao
som de atabaques que reclamavam uma erudição. O artista, ao reduzir o
símbolo à sua essencialidade primária, submetia-o à lei da pintura: pro-
porção, simetria, cor, etc. Portanto, a importância do seu trabalho não se
resume à origem de sua sintaxe, ou ao que ela pode representar. O traba-
lho tem a autonomia de sua fantasia e assim será lido em tempos futuros.
Conhecido principalmente como o geômetra da cultura afro-brasileira,
sua pintura ultrapassa essa objetividade mais visível. Na definição do
próprio artista: “A arte é um produto poético, cuja existência desafia o
tempo e por isto liberta o homem. Isto me afeta porque sou um indivíduo
tremendamente inquieto e substancialmente emotivo”.

O artista é sempre um personagem do romance real que passa a
vida querendo ver. Trabalha os signos até transpor sua realidade social
e histórica, como se fossem imagens de sonho. Por trás dessas figuras
emblemáticas da pintura, deste “monge do candomblé”, há um mundo
de inquietações, revoltas e angústias, que faz parte da intimidade e da
cidadania do artista. Um imaginário.

A arte, para Valentim, era mais que um trabalho, era um vício; era mais
que um rito, era um raciocínio delirante. Era um artista capaz de passar 24
horas, sem parar, falando de arte, sem perder o entusiasmo e sem esgotar
tudo o que deseja falar. “O tempo é minha grande preocupação. Uma das
minhas angústias é ver chegar o tempo final sem poder realizar tudo que
imaginei” (depoimento do artista, 1976). A arte, para Valentim, era um
sonho imprescindível à vida, e interminável, porque a imaginação estava
sempre em atividade.

Através do olhar do artista, signos secretos provenientes da cultura
popular passaram para o mundo complexo da arte onde são contemplados
como sintaxe do belo, assim como Claude Monet contemplou as ninféias.
Somos então convidados a participar de um ritual, olhar estes símbolos
de contornos rigorosos com profundidade, distância e tranqüilidade. Não
estamos diante de coisas, mas elementos simbólicos de uma outra religião
secreta, inventada pelo artista. Fantasia? A obra não responde, nos de-
volve as indagações. Era um artista que acreditava na arte como motivo
essencial da vida, ou quem sabe, que a arte pudesse substituir a religião e
até estruturar o cotidiano.

Mas o que mais marca o trabalho de Rubem Valentim é sua proposta de
coerência como método de construção da obra. Pintor de vocação cons-
trutiva, seu trabalho passou por diversos momentos, sempre marcado por
uma paixão: a vontade de refletir e pintar com austeridade, dentro de uma
atmosfera mítica, como se pintar fosse dialogar com alguma divindade,
nos momentos de plenitude ou vazio, de excesso ou contenção pictórica,
da cor ao mergulho no silêncio do branco. Que sejam: pinturas, relevos,
objetos, esculturas... o desejo de uma ordem construtiva estava presente
sinalizando a coerência de um verdadeiro artista. Avesso às modas e sem
fazer concessões: uma lição de mestre.

(artigo de nosso amigo... artista plástico, poeta e arquiteto: Almandrade) 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Otávio Bahia, um escultor afro-baiano

As artes de Otávio Francisco dos Santos, mais conhecido como Otávio Bahia, são eternas. Mostram-se a cada talho, existem no mais expressivo olhar e, por fim, rendem-se magistralmente renovada, retornando à fonte de seu propósito: a África.

A tão cantada e explorada ligação entre a África e a Bahia de Todos os Santos, principalmente no que se refere a sua beleza iconográfica e imagética, é trazida à luz – para além das associações desfocadas e simplistas – nas incríveis peças em madeira (máscaras, figuras humanas, orixás, móveis etc) desse exímio produtor falecido recentemente. Otávio Bahia nos deixou no fim de 2010. Sua arte jamais fenecerá.
A trajetória desse expoente da cultura baiana não deixa de ser curiosa. Começa trabalhando ainda garoto como fabricante de móveis, quando aprende as bases do ofício com a madeira, distante porém, ainda, de maiores afinidades com suas próprias raízes africanas.

A partir de uma visita singular a uma exposição de arte africana, passa a modelar máscaras em lugar de móveis somente. Um círculo se fecha e outro magnífico se abre. Os temas africanos, pelo caminho de suas mãos, reinventam o ser como artista, enquanto uma estética de forte caráter afro-baiano nasce com bastante vigor. Logo seus primeiros trabalhos passam a chamar a atenção de outros artistas e de pessoas ligadas aos terreiros de Candomblé que prontamente passam a lhe fazer encomendas. Mais um universo se abre ao talento do artista: o mundo dos Orixás, suas cores, formas e fundamentos, riqueza incalculável de conhecimento necessário para os inúmeros pedidos que recebe e para a própria formação do artista. O traço fantástico de Otávio causa uma perplexidade pontual: a da descoberta de uma arte mestiça, que bebe nas diversas fontes de expressão africana, mas que aponta também para algo genuinamente brasileiro e baiano. Uma máscara Senufo ou Dogon, Bijagó ou Gueledé, todos esses arquétipos são reformulados em sua obra, reconstruídos segundo a sensibilidade ímpar de Otávio, e passam a fazer parte de uma iconografia baiana mais que coerente se nos voltarmos para a história da Cidade do Salvador e de seu Recôncavo, quase que místico, destino e amálgama de diversas populações africanas, a Roma Negra.

Muitas das peças de Otávio Bahia se encontram na mão de alguns poucos colecionadores. Hoje é raro encontrar vestígios de sua produção. Nos últimos anos ele vinha esculpindo, com a mesma qualidade de sempre, em sua casa-ateliê em Fazenda Coutos, subúrbio ferroviário de Salvador, mas essa boa atividade de criação veio a sofrer alguns golpes de sua já debilitada saúde – Otávio era um senhor bem franzino –, além dos embates pessoais e familiares por motivos religiosos. Oitenta anos se passaram e deixarão saudade – usava óculos, sorria bonito.


imagem_01: Máscara de Exu
imagem_02: Figura Sentada
imagem_03: Mãe Preta


* peças do acervo da Sala Oyá Galeria
[ver mais em www.salaoya.com.br]




quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOBRE OYÁ

Eis uma série de Oriki de Oyá e em seguida algumas lendas que versam sobre sua coragem e vivacidade extrema.

1 – Mulher de vestes vistosas
2 – Minha mãe da roupa de fogo
3 – Nada de mentiras pra ti
4 – Mulher neblina no ar
5 – Oyá, leopardo que come pimenta crua
6 – Onde ela está, o fogo aflora
7 – Mulher que olha como se quebrasse cabaças
8 – Fêmea que flana
9 – Epa, Oyá dos nove partos, eu te saúdo
10- Ventania que pariu o fogo
11- Beleza preta no ventre do vento
12- Ela dorme dançando
13- Quem procura Oyá no vaivém do mercado vai e vê que ela anda de quitanda em quitanda mascando nacos de Obí e vibrando em vermelho. Oyá, brasa do bata, lança de fogo no jogo da dança.

**
Oyá vivia com Ogum antes de tornar-se esposa de Xangô. Vivia, então, com o ferreiro ajudando-o em seu ofício, principalmente manejando o fole para atear fogo à forja. Certa vez Ogum presenteou Oyá com uma varinha de ferro que possuía o poder de dividir em sete partes os homens e em nove partes as mulheres, bastando tocá-la no corpo de um deles. Ogum dividia assim com Oyá o poder de manejar essa arma nas guerras.

Nessa mesma vila vivia Xangô, simpático e sedutor que, vez por outra, ia à casa de Ogum apreciar não só o trabalho do ferreiro, mas também para arriscar olhares para Oyá. Xangô impressionava muito Oyá, principalmente por seu olhar majestático.

Um dia Oyá fugiu com Xangô fazendo com que Ogum saísse numa busca alucinante pelos dois. Ao se encontrarem, Ogum e Oyá tocaram-se ao mesmo tempo com a varinha e o encanto aconteceu. Ogum dividiu-se em sete partes donde recebeu o nome de Ogum Mejê, e Oyá foi dividida em nove pedaços, sendo conhecida como Oyá Mensan. Daí se originou o nome Iansã, a mãe que se transformou em nove. Ou, para outras vertentes, a mãe dos nove filhos.

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Certa vez houve uma festa com todas as divindades presentes. Omulu-Obaluaê chegou vestindo seu capucho de palha. Ninguém o podia reconhecer sob o disfarce e nenhuma mulher quis dançar com ele. Só Oyá, corajosa, atirou-se na dança com o Senhor da Terra. Tanto girava Oyá na sua dança que provocava vento. E o vento de Oyá levantou as palhas e descobriu o corpo de Obaluaê. Para surpresa geral, era um belo homem. O povo o aclamou por sua beleza.

Obaluaê ficou mais do que contente com a festa, ficou grato, e em recompensa, dividiu com ela o seu reino. Fez de Oyá a rainha dos espíritos dos mortos. Rainha que é Oyá Igbalé, a condutora dos eguns.

Oyá então dançou e dançou de alegria para mostrar a todos seu poder sobre os mortos. Quando ela dançava, agitava no ar o iruquerê, o espanta-mosca com que afasta os eguns para o outro mundo.

Rainha Oyá Igbalé, a condutora dos espíritos.

Rainha que foi sempre a grande paixão de Omulu.

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Osogyian estava em guerra. Mas a guerra não acabava nunca, tão poucas eram as armas para guerrear. Ogum fazia as armas, mas fazia lentamente. Osogyian pediu a seu amigo Ogum urgência, mas o ferreiro já fazia o possível. O ferro era muito demorado para se forjar e cada ferramenta nova tardava como o tempo. Tanto reclamou Osogyian que Oyá, esposa do ferreiro, resolveu ajudar Ogum a apressar a fabricação.

Oyá se pôs a soprar o fogo da forja de Ogum e seu sopro avivava intensamente o fogo. E o fogo aumentado de calor derretia o ferro mais rapidamente. E logo Ogum pôde fazer muitas armas. E com as armas Osogyian venceu a guerra. Osogyian veio então agradecer Ogum. E na casa de Ogum enamorou-se de Oyá.

Um dia fugiram Osogyian e Oyá, deixando Ogum enfurecido e sua forja fria. Quando mais tarde Osogyian voltou à guerra e quando precisou de armas muito urgentemente, Oyá teve que voltar a avivar a forja. E lá ao longe da casa de Osogyian, onde vivia agora, Oyá soprava em direção à forja de Ogum. E seu sopro atravessava toda a terra que separava a cidade de Osogyian da de Ogum.

Seu sopro cruzava os ares e arrastava consigo pó, folhas e tudo o mais pelo caminho, até chegar às chamas com furor. E o povo se acostumou com o sopro de Oyá cruzando os ares e logo o chamou de vento. E quanto mais a guerra era terrível e mais urgia a fabricação das armas, mais forte soprava Oyá a forja de Ogum. Tão forte que às vezes destruía tudo no caminho, levando casas, arrancando árvores, arrasando cidades e aldeias.

O povo reconhecia o sopro destrutivo de Oyá. E o povo chamava a isso tempestade.

webgrafia
popular.art.br;
ocandomble.wordpress.com;
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